Pensamento Atual

Enio Macagnan (www.macagnan.cjn.net)

JNB 06 de novembro de 2014

Hora de parar?
Quando a gente chega a este mundo, através do nascimento, inicia-se uma caminhada cuja distância não é previamente revelada. Assim, a pessoa começa a caminhar, conhecer novas coisas, novos caminhos, novas pessoas... e segue caminhando. Até onde caminhará? Na verdade, ninguém sabe. É a maior das incógnitas.
Existem pessoas que sofrem por não saber até onde poderão chegar e até quando poderão tentar chegar. Para alguns, isso se torna um verdadeiro martírio. Um espinho no pé, que incomoda durante toda a sua caminhada.
Muitos abandonam o barco (todos os barcos) a partir de determinada idade por que entendem que o fim está próximo. Outros relutam a começar por que entendem que são muito jovens para tal. Outros aproveitam todos os dias e seguem adiante até que a vida lhes permita fazê-lo.
Difícil saber quem está certo. Ou mesmo se alguém está certo. Ou se determinadas perguntas ou decisões são decorrentes do medo de enfrentar uma realidade patente (o fim de tudo!), mesmo sabendo que o desfecho não depende de cada um.
No final das contas surgem outras perguntas ainda mais pertinentes?
- Quando começa a velhice?
- Quando começa a vida adulta?
- Quando começa ou termina a juventude?
- Qual o limite entre cada um desses degraus, ou seja, onde termina uma idade e começa outra? A idade cronológica é suficiente para essa decisão?
E outra questão intrigante: será que as respostas estão mesmo relacionadas com a idade cronológica da pessoa? E ainda: quem define a idade, a cronologia ou a escolha da própria pessoa? Em síntese: Até que ponto a idade cronológica influencia, ou determina, ou define as decisões de uma pessoa?
Diz-se que o ideal é que as pessoas atuem de acordo com sua idade cronológica. É o que as sociedades atuais esperam. É uma espécie de padrão mundial vigente. Entretanto, surge uma dúvida: até que ponto uma sociedade tem poderes para estabelecer parâmetros de competência para seus cidadãos? Não seria uma forma de “bitolamento” das pessoas, mantendo-as aprisionadas a cabrestos virtuais (mas reais) para evitar que se sobressaiam das demais e, com isso, cheguem a comprometer os padrões sociais estabelecidos não se sabe quando e por quem, mesmo sabendo que esse “cabestreamento” subjuga inclusive aqueles que se julgam seus idealizadores?
Com base nos parâmetros da sociedade atual, é comum ouvir-se expressões que, consciente ou inconscientemente, determinam posicionamentos de pessoas em redutos que podem segregá-las do convívio que deveria ser natural para todos, tais como: jovens com cabeça de criança, ou de velhos, em contraposição a “jovens adequados à sua idade”. Adultos com cabeça de criança, ou de jovens, quando não de velhos. Velhos com cabeça infantil, inadequados à sua idade. E assim por diante.
Ora, o que define a adequação à idade? Ou, o que é adequação à idade? A idade cronológica deve mesmo determinar a idade real da pessoa (a cabeça da pessoa!)? 
Rotular pessoas é aprisioná-las, negando-lhes o direito de conduzir a própria vida e de ser artífice de seus feitos. Essa forma de amordaçar as pessoas equivale a extorquir-lhes o direito de decidirem sobre seu próprio presente (já que o futuro é incerto). E, com isso, é comum que a sociedade defina, mesmo que de forma informal (mas real), quando o cidadão deve começar a trabalhar e quando deve parar (é claro que deve ser salvaguardado o direito da criança e do jovem à educação e de se desenvolver fisicamente antes de exigir-lhes compromisso profissional). Existem exemplos em todos os países de cidadãos que empreenderam e produziram grandes realizações a partir de idade cronológica que, segundo padrões da sociedade em que se insere, deveriam parar e se entregar ao tédio, ao nada, mediante a hipócrita insinuação de que é chegada a hora de descansar (como se para descansar é necessariamente preciso dedicar-se ao nada).
Por isso, entende-se que a hora de parar deva ser prerrogativa exclusiva de cada pessoa, independentemente de padrões formais ou informais correntes em qualquer sociedade. Portanto, mãos à obra!
* Enio J. Macagnan
(Você pode ler esta matéria em
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JNB 292 - 26 de junho de 2014

O papel do líder
Dos temas em que mais se escreveu, com certeza está o da liderança. E continua-se a escrever, pois o assunto nunca se esgota. Por isso, atrevo-me a publicar algumas reflexões sobre o tema, destacando o papel do líder na sociedade atual.
Charles Chapplin escreveu sobre temas diversos, e foi brilhante em todos os seus escritos. Uma de suas frases sobre liderança: “Às vezes precisamos de alguém que nos ouça, que não nos julgue, que não nos subestime, que não nos analise. Apenas que nos ouça”...
O líder não se limita a dizer o que deve ser feito: ensina como fazer. Faz junto. Muitas vezes faz primeiro. Ensina que para ultrapassar as barreiras não se deve ficar contemplando as dificuldades, nem ouvir os pessimistas que insistem em dizer que não dará certo, mas enfrentá-las, contorná-las se for preciso, mas jamais desistir. Recuar sim, desistir nunca. Recuos estratégicos, para retomar o fôlego, refazer as forças, reconstituir as estratégias, para tornar a seguir em frente.
O desafio de viver impõe muitos começos. Às vezes sugere a modificação do normal pelo diferente, pelo inédito. E este é o papel do líder.
No conceito atual, liderar é acima de tudo colocar-se à disposição dos liderados, estar a seu serviço. Ser um igual, sem esquecer de seu papel de líder, pois liderar é ouvir, acompanhar, andar junto, no mesmo nível, sem buscar privilégios pessoais que poderiam parecer ser decorrentes de seu status de líder.
Liderar é ser o primeiro a enfrentar as dificuldades. Isso não significa que não possa deixar transparecer suas dúvidas, seus medos, suas limitações. Afinal, ser líder não significa ter atingido a perfeição. Continua sendo humano, com todas as características inerentes aos seres humanos, inclusive deficiências (e muitas). Precisa saber pedir ajuda e ajudar. 
Liderar é influenciar pessoas, tornar-se referência para elas. Daí a grande responsabilidade: não decepcionar quem o escolheu como referência, quem o autorizou a liderá-lo.
Liderar é conduzir pessoas rumo aos melhores caminhos. Rumo aos objetivos coletivos e pessoais. Liderar é mostrar o caminho e seguir junto. Liderar é, muitas vezes, fazer o caminho. Partir do nada, do duvidoso, da escuridão, para chegar à luz, à certeza, ao tudo.
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JNB 288 - 24 de abril de 2014

Amizade
Muito se escreveu, e muito se escreverá ainda sobre o tema “amizade”. Isso porque o assunto nunca se esgotará. Mais que uma palavra, “amizade” é uma forma de vida, um jeito de ser e de viver.
Não importa a distância. Ou como se diz habitualmente, a distância é o que menos conta. Ou também: a presença física não é relevante.
São expressões que, de alguma forma, servem para avaliar a solidez de uma amizade. E existe coerência, pois a amizade, quando verdadeira, sólida, não resultado de momentos de impulsos, dispensa a obrigatoriedade do contato físico (ou da presença como muitos preferem) para se manter acesa. A chama da amizade se alimenta da realidade dos amigos, que supõe honestidade, transparência e muito altruísmo. Anos de distância física não exterminam uma amizade. Nem diminuem a sua intensidade. Também não a colocam em dúvida. A amizade é para sempre.
Ora, se a amizade é para sempre, é óbvio que os amigos também são para sempre. Quando os amigos se vão, desaparecem da nossa vida, estão declarando formalmente que não eram amigos, mas apenas colegas, companheiros de jornada, etc., que se uniram a nós por interesses pessoais (conscientes ou inconscientes). Às vezes apenas sentiram necessidade de amparo e viram em nós um ponto de apoio seguro, uma bengala, algo que lhes desse alento pontual, mas que no primeiro momento de dificuldade, ou quando imaginaram que não teriam mais necessidade, desapareceram. Outras vezes buscam amigos para auferir privilégios, ou para obter vantagens pessoais. São os pseudo-amigos. Não diria sequer que são falsos amigos, mas apenas supostos amigos. Essas pessoas provavelmente nunca terão amigos, porque a todos tratarão dessa mesma maneira. E quando perceberem, estarão sozinhos. E será tarde.
Os amigos são para sempre. Talvez seja por isso que são poucos. A vida os seleciona e permanecem conosco apenas os amigos de verdade. Os outros se vão. E apesar desse fato às vezes nos surpreender, ou de nos deixar entristecidos, logo percebemos que não eram amigos e que foi bom que tenham ido.
A amizade verdadeira nos dá a certeza de que não andamos sozinhos, mesmo que pareça estarmos completamente desacompanhados. A lembrança de nossos amigos atenua a nossa angústia, dando-nos a certeza de que estão sempre conosco em espírito e sempre torcendo muito por nós. E a recíproca é verdadeira. Do contrário a amizade não subsistiria.
A lembrança da convivência passada, das palavras trocadas, da certeza de que tudo é recíproco ajuda a trilhar pela senda segura. A amizade permite, mesmo na distância, viver momentos iguais com os amigos, mesmo que de forma diferente. Permite renovar o normal a cada dia, tornando-o diferente, inédito, mais aprazível. Essas atitudes modificam a nossa vida no dia a dia. É o crescimento originado pela certeza de estar sempre acompanhado, mesmo que a milhares de quilômetros de separação física, permitindo o crescimento mútuo, homogêneo.
Quando se tem amigos, as contingências da vida não passam de rotinas, podendo ser transpostas uma a uma, dia após dia, com a coragem daqueles que sabem que a melhor de todas as vitórias é aquela em que participam as pessoas mais queridas.
A amizade, no silêncio dos momentos intensos ou morosos de nossa vida, nos transforma lentamente, tornando-nos diferentes, e mais felizes.
* Enio J. Macagnan
www.eniomacagnan.blogspot.com
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